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Intolerância intolerável

Política é a arte de conviver. Uma arte perdida? Esquecida? Nunca aprendida? Por que é tão difícil aceitar o outro como ele realmente é? Por que o diferente incomoda? É um ciclo tão vicioso (e interminável?) que as pessoas se irritam/incomodam com a irritação/incômodo das outras pessoas! Racismo, homofobia, eleições, preferências musicais, política, religião, futebol... qualquer tema é tema de discordância. Todo dia a gente vê discussões e discursos (duvidosos? Irresponsáveis?) no Facebook, o campo de batalha moderno protegido pela distância e virtualidade. Tanto desacordo mostra um fenômeno que muitos (pela evolução dos tempos) pensavam ter terminado (ou pelo menos diminuído): a intolerância.


É a dificuldade (e, em alguns casos, incapacidade) de lidar com o outro, com o diferente. Principalmente nas redes sociais. Parece que o zelo (e a arte) pela convivência e pela aceitação está decaindo, ou sua falta se revelando. Talvez isso se dê justamente pela tecnologia e o modo como estamos nos relacionando: à distância, sem o olho-no-olho, sem compromisso, sem a dificuldade da responsabilidade da presença e das consequências reais do que é dito, opinado, compartilhado.


Talvez essa intolerância seja reflexo do narcisismo das pessoas que encontram numa sociedade doente e carente o ambiente perfeito pra militar suas verdades e opiniões. Talvez seja por causa da supervalorização da liberdade: de expressão, de opinião, de escolha. Mas e velho ditado “a sua liberdade termina onde começa a do outro”? É claro que se você não defender seus pontos de vista e exercer sua liberdade você não estará respeitando a si mesmo (o pior dos sacrilégios existenciais!). Mas é preciso ter cuidado com o outro também. Afinal, somos seres sociais. E não apenas de redes sociais.


Alguns conseguem conviver, mas não aceitar o diferente. Outros até aceitam, mas não convivem. Fica mais fácil. Ódio, agressividade, preconceito justificados como opinião. Todo mundo tem direito à sua. Mas junto com essa opinião, que é (parte de) você, vem a responsabilidade. E essa responsabilidade implica o respeito pelo outro, pelo diferente, pelo “eu que não sou eu”.

Não é errado querer o melhor pra si. Mas é, no mínimo, discutível achar que o melhor pra você é o melhor pra todo mundo. E isso você pode discutir em terapia. A rigidez de pensamentos e atitudes mascara nossas fraquezas e defeitos. E não estou dizendo que toda fraqueza seja um defeito. Só que a rigidez impede o crescimento, seja ele pessoal ou do vínculo. A partir do momento em que se discute ideias, algo novo pode surgir. Pode haver mudança. Mas as pessoas, ah, as pessoas! Sempre com medo da mudança e com a necessidade de estarem certas. É muito bom saber se posicionar, defender ideias e ideais. Mas existe um jeito pra isso. Um jeito cuidadoso e responsável, consigo e com o outro.

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