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Remendos da maternidade

Estava eu, numa manhã chuvosa, andando na garagem do prédio pra induzir a soneca da manhã da minha joia no carrinho (técnica milagrosa).


Fui reparando no que eu sempre achei meio absurdo: nas telhas que colocam no teto pra evitar que pingue água dos canos nos carros. Afinal, não seria mais fácil consertar os canos?


E aí,  soneca que não engrena, andando mais e mais, percebi que tinha telha onde não tinha cano. Olhando mais de perto (apesar da péssima iluminação) vi estalactites. Formadas de água do térreo.  


Na hora pensei "essa merda vai cair logo" e, depois pensei "Esse remendo é igual a maternidade: a gente vai fazendo o que pode com o que tem." E nem sempre a gente tem o necessário.


Afinal, não sabemos tudo,  não podemos tudo, não conseguimos tudo. Vamos dando um jeitinho pra tapar os buracos. Ou proteger os carros, no caso da garagem.  Não é sempre que a gente vai ter 200 mil reais pra impermeabilizar o térreo do nosso prédio. Mas se é algo que a gente sabe que precisa ser feito, temos que dar um jeito. Pro teto não desabar.


O problema do remendo é que o problema continua lá.  Ele só parece controlado. E seria negligência não dar um jeito de resolver o problema se o risco é um desabamento. Uma hora o síndico tem que se mexer e arrumar o dinheiro pra fazer a obra. Vai incomodar os condôminos? Com certeza . Vai ser dinheiro, barulho, poeira, interdição do térreo. Resolver problemas custa. 


Se nos falta algum recurso ou habilidade necessária pra maternar, tb custa. Tempo, dinheiro, silêncio, saúde mental (olha a culpa aí!), incomodar os outros. Aí é uma escolha nossa resolver o problema ou esperar o teto desabar. E lidar com as consequências, claro.


Tem coisa que a gente tem que fazer. Gostando ou não. Sabendo ou não. 


Como disse meu pai quando eu tinha 17 anos e morava sozinha em outra cidade e me deparei com algum desafio e liguei pra ele "Se vira". E a maternidade é isso. Um looping atrás de outro. Se virando como dá. Remenda aqui, conserta ali. Síndicas honorárias sem caixa suficiente por, no mínimo, 18 anos.

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