Armadura ou amargura?


É muito comum perceber pessoas que terminaram relacionamentos, ou que (ainda) não se encontraram em nenhum, dizendo que não querem mais namorar ou que desistiram. Essa é uma reação natural (e esperada) de lidar com a perda, um luto. É uma forma de se proteger. Aliás, negação é um dos mecanismos de defesa do ego. Mecanismo de defesa é um mecanismo inconsciente que é “ativado” quando nos sentimos ameaçados ou angustiados. Então, pra manter nossa integridade e funcionamento, ele aparece. Só que muitas vezes nos utilizamos tanto de defesas, que elas nos tornam rígidos e protegidos até demais. E nada em excesso é saudável.

O problema começa quando a armadura criada pra se proteger dá lugar à amargura. Na esperança de tentar evitar (mais) sofrimento, a pessoa se coloca num estado permanentemente amargo. Daí, é um passo pra se convencer (ou tentar) de que não quer mais. Nunca mais. E assim, acaba criando uma crença limitante. A pessoa se fecha, repele, se protege. De tudo. Do ruim, mas também do bom. Transforma um mecanismo de defesa que deveria ser dinâmico, num modo rígido (e disfuncional) de se comportar, perdendo a espontaneidade e as oportunidades de experiências. Perdendo o bom com medo da possibilidade do ruim. Perdendo amor pela memória da dor.

Claro que cada um tem seu tempo pra lidar com a perda, cada história é uma história e cada relacionamento é um relacionamento. E é assim que a pessoa que (acha que) desistiu tem que pensar. Não é porque não deu certo dessa vez, ou de outras vezes, que nunca vai dar. Entender uma decepção como todas as decepções (até as que nem aconteceram ainda) é generalizar, o maior e mais comum erro que cometemos ao tratarmos de relacionamentos. É uma forma equivocada de proteção. E injusta. Consigo e com o outro. É julgar antes do crime, é evitar todas as possibilidades. Evita, principalmente, a possibilidade de se surpreender.

Então, pense que a vida é movimento e movimentar-se numa armadura é mais difícil. A vida é altos e baixos, é doce e amarga, é incerta, é construção, é permitir-se. Permitir sentir a dor, sim. Mas também se permitir arriscar, tentar, fazer, mudar, conhecer. Porque só nesse caminho é possível encontrar momentos de felicidade. Que assim como os momentos de dor, passam.

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