A dificuldade de ser quem se é

Por que, às vezes, é tão difícil fazer o que se gosta? Ou mais: por que pode ser tão difícil saber do que se gosta ou, até, o que se quer? Porque somos humanos! Lindo e trágico... Por que trágico? Pois bem, o homem é um ser-no-mundo-com-os-outros cujas experiências já vêm contaminadas de pré-conceitos e determinações. Vem daí a tendência que temos à repetição, ao automático, a ficarmos presos na rotina e nas ocupações. Vem daí as crenças, as introjeções, o sofrimento e o vazio. Da relação com o outro e com o mundo, da cultura, da não experiência, do que nos é dado. E por que? Porque é muito mais fácil seguir uma receita do que cria-la. Só que nem toda receita dá certo. Depende de quem faz.


Talvez a principal contribuição de Heidegger para a Psicologia seja a ideia de finitude, de ser-para-morte. Pode ser uma ideia bem angustiante pensar na própria morte, mas isso contribui para o projeto existencial do homem, ao entender que só se tem uma vida para viver, para ser. Ser é nossa responsabilidade. E justamente por ser nossa responsabilidade, ao mesmo tempo em que nos dá infinitas possibilidades, nos angustia pela liberdade de escolher. E que difícil escolher! E o medo de errar? “E se...”? E a culpa? Não temos garantias, nem certezas. E, paradoxalmente, é o que mais buscamos: certezas que nos deixem seguros.


São as incertezas (ou o medo delas) que nos levam automaticamente à rotina, à reprodução e à lógica. Precisamos de segurança, de explicação de tudo e para tudo. Tudo tem que ter sentido. Um sentido certo, claro, senão não vale. Ninguém quer ser “errado”. Não queremos errar. Temos medo. Mas é aí que corremos o risco de mergulhar na inautenticidade, numa vida irrefletida (sem pensar) e superficial. É aí que vivemos a vida que “tem que ser”, a vida “certa”, tentando sempre corresponder às expectativas dos outros, ao que achamos que se espera de nós ou ao que achamos que queremos. Queremos acertar numa prova sem gabarito.


Sem reflexão, sem espontaneidade e sem criatividade, nos tornamos pessoas médias, comuns, emprestando sentidos dos outros para o nosso vazio. Tentamos nos encaixar no que já existe. Mas acaba que vamos vivendo sem existir. O papel da Psicologia é resgatar a criatividade e a espontaneidade. É produzir(-se) ao invés de reproduzir. É ser sendo.

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